13/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Forças Armadas diminuirão ação na fronteira e grandes cidades, como São Paulo, Rio e Manaus, ficarão mais inseguras

Publicado em 01 de setembro, 2017

O comandante do CMA, Antônio Miotto, avisa que contingenciamento do orçamento do Exército vai afetar a fiscalização dos tráficos de drogas e armas na fronteira brasileira na Amazônia

O general Antônio Miotto, da arma de Cavalaria do Exército, que dirige o Comando Militar da Amazônia (CMA), afirma que a partir deste mês de setembro as Forças Armadas vão diminuir as ações na fronteira brasileira na Amazônia, devido ao contingenciamento de 45% do orçamento do Exército. “A Polícia Federal estima que 80% da criminalidade urbana esteja ligada, direta e indiretamente à droga ou tráfico de armas, ou seja, todos os grandes problemas de segurança pública que ocorrem nos grandes centros, inclusive Centro-Sul, passam pela fronteira”, disse o comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, que também participou da entrevista à repórter Luana Borba, da rádio CBN Amazônia.

A Amazônia tem cerca de 10 mil quilômetros de fronteira, contando hoje com 9,5 mil dos 21 mil homens e mulheres de todo o Exército Brasileiro. O general Villas Bôas acrescentou que “60 mil vidas por ano são assassinadas e outras 20 mil pessoas desaparecem por ano”, em decorrência da violência. “O corte de orçamento pode diminuir a capacidade do Exército de atuar na fronteira”, enfatizou.

“Do ponto de vista estratégico, a Amazônia continua sendo prioridade, mas vai sofrer restrições. Não vamos nos retirar. Isso aqui não vai virar território livre para o crime, mas vamos diminuir nossa atuação”, disse Antônio Miotto.

O Exército tem 24 pelotões de fronteiras, sete batalhões de Infantaria de Selva e três comandos de generais de brigadas atuando no Estado. E o Exército trabalha sempre em conjunto com a Polícia Federal e as polícias Militar e Civil.

O comandante do CMA explicou que a fiscalização do tráfico de drogas e armas é feita em três rotas fluviais: Caquetá-Japurá, Putumá-Içá e o Solimões. “A principal rota é a Japurá, por onde está descendo skunk, o que pode ser visto pelas apreensões da Polícia Federal, Secretaria de Segurança e até Marinha. Está descendo da Colômbia com armamento, em venda casada com a droga. Uma canoa que vem com uma tonelada de skunk está vindo também com cinco, seis fuzis AK47 e M16 e o Sérgio Fontes (ex-secretário estadual de Segurança) relatou uma prisão, próxima a Manaus que, além de FAL, tinha um lançador de granada 40mm e óculos de visão noturna que só as forças armadas usam. Coisa muito sofisticada. Cada vez mais precisamos de meios de locomoção, armamento e proteção dos militares”, disse o general.

O Exército vinha buscando a modernização, enviando equipamentos sofisticados, este ano, para os pelotões de fronteira, com 60 homens cada um, comandados por tenente, que também dão atendimento de saúde a indígenas e ribeirinhos, inclusive com escolas, em locais onde a presença do Estado Brasileiro é inexpressiva. “Em alguns pelotões só a Força Aérea pode fazer o abastecimento e fazer evacuação aeromédica, não só de militares, mas de ribeirinhos e indígenas”, lembrou o comandante.

“Há operação de inteligência em todas as áreas prováveis de crime e em intercâmbio com Peru, Colômbia e Bolívia. Tenentes, de um país e outro, se conversam para organizar operações militares. A parceria com os Estados vizinhos é excelente”, revelou. “Um general de divisão da Colômbia foi a Iauaretê e calha do Waupés tratar da presença de dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que não entregaram os armamentos no armistício”, acrescentou.

“Descemos para o chão de fábrica, como se diz, para os batalhões, e nossos alvos, que são o contrabando de armas e drogas… Tem combate mesmo, entre traficantes e soldados e policiais. Há alguns anos perdemos policiais federais no confronto com esses bandidos”, disse. “Temos que manter os recursos para manter a pressão na fronteira. Temos homens e equipamentos, mas não pode ter corte de recursos porque se diminuem as operações, defesa e segurança trabalham juntas e vai impactar na segurança das grandes cidades porque o tráfico vai funcionar mais. O impacto vai chegar a grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro”, explicou.

“O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cocaína e a droga entra direto no País. Num avião é preciso uma hora e meia para chegar até a fronteira. Numa balsa, 45 dias. O Brasil está acostumado com mobilidade rodoviária, mas aqui é aquática, que é lenta, ou aérea, que é muito cara”, informou.

Até meados de setembro, segundo o comandante do CMA, o Exército vai diminuir as operações. “Até dia 15 de agosto, o Exército fez quase 400 operações, com pequenos e grandes efetivos”.

O CMA tem um médico, um dentista e um laboratório funcionando, atendendo militares e população em geral, em todos os pelotões, mais dois hospitais militares, um em São Gabriel da Cachoeira, onde 90% dos pacientes são civis, e outro em Tabatinga, comandado por coronel, que atende também colombianos e peruanos. “Em 2016, uma única tenente obstetra fez mais de 600 partos”, detalhou. O Governo do Estado também aporta recursos para o atendimento.

 

Garimpo

O trabalho das Forças Armadas tem obtido bons resultados. O general Antônio Miotto contou que na calha do rio Urariquera, na área da Terra Indígena Ianomami, 56 balsas foram apreendidas, 2,5 mil litros de combustível, motores e armas. Lá funcionava um garimpo que movimentava R$ 20 milhões/ mês, sem a Receita Federal tomar conhecimento.

Outra operação, no garimpo do Mutum (na região do alto Mutum, entre as cidades de Amajari e Alto Alegre, quase na fronteira com a Venezuela, no extremo Norte de Roraima), apreendeu 4,5 mil litros de combustíveis, armas, munições. Funcionavam supermercados, salão de beleza, prostíbulo, movimentando R$ 32 milhões/ mês.

“Apreendemos uma tonelada de skunk, meia de maconha, 50 kg de cocaína, só na calha do Japurá, este ano. A Marinha apreendeu 1,5 tonelada, também no rio Japurá. É droga no valor de R$ 5 milhões:, disse o general.

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