19/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Morre Moacir Andrade, o artista plástico boêmio que percorreu o mundo, não bebia, mas adorava varar madrugadas

Publicado em 27 de julho, 2016

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Moacir Andrade, 1927-2016

O artista plástico, museólogo, escritor, poeta e membro da Academia Amazonense de Letras (AAL) Moacir Andrade, 89 anos, faleceu às 14h desta quinta-feira (27/07), no hospital da Unimed, no Parque das Laranjeiras. Diabético, ele não resistiu ao pós-cirurgia para extrair um tumor maligno das vias biliares, realizada sábado (23/07). “Era um grande aventureiro. Viveu em várias cidades dos Estados Unidos e na Europa. Passava temporadas assim. Era um boêmio, que varava madrugadas e não gostava de beber”, testemunha o contemporâneo e colega de AAL, o poeta Elson Farias. Moacir ocupava a cadeira 30, do grande orador Alcides Bahia. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, decretou três dias de luto municipal.

O artista ainda mantinha atividades. É um dos curadores da exposição que acaba de ser aberta pelo Instituto Cultural Brasil Estados Unidos (Icbeu), na avenida Joaquim Nabuco, onde um dos maiores quadros é de autoria dele. As Edições Icbeu, aliás, dedicaram-lhe o livro “Moacir, uma lenda amazônica”, compilado pelo professor José Roberto Girão de Alencar, em 2009, que também foi relançado agora, como parte das comemorações de 60 anos da instituição.

Moacir, que dizia ter pintado mais de 10 mil telas, espalhadas em 70 países, entre outras coisas, deu nome à galeria de arte do Serviço Nacional do Comércio (Senac) e ao prédio da rua Belo Horizonte, esquina com Umberto Calderaro Filho, antiga Paraíba, da construtora Encol S/A, o Edifício Art Moacir Andrade.

Foi um dos primeiros membros do Clube da Madrugada, engajado na chamada Arte Moderna. “Na maturidade começou a escrever poesias e ensaios. Tinha um grande senso da cor. Dominava muito bem essa linguagem. Passou por várias fazes, como paisagista, folclorista, com quadros de figuras típicas, como ‘O empinador de papagaio'”, afirma Elson Farias. Publicou muitos livros, que ele próprio ilustrava, sobre peixes e outros aspectos da Amazônia. Suas telas apresentam galos, paisagens, folclore, sempre ressaltando as cores.

Ganhou a vida por muitos anos, com seu espírito excêntrico e inquieto, fazendo desenhos arquitetônicos na empresa do engenheiro José Florêncio da Cunha Batista, irmão do médico e escritor que deu nome a uma das principais ruas de Manaus, Djalma Batista.

Construiu aos poucos, acumulando objetos que trazia de suas viagens, inclusive pelo interior da Amazônia, um amplo estúdio na parte de trás da casa onde sempre morou, na rua Alexandre Amorim, no bairro de Aparecida.

Conta-se que, professor de desenho na Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFA), estava falando sobre os diversos instrumentos usados na pintura. Entre compassos, esquadros e réguas um aluno, conhecido pelo espírito gozador, perguntou para que servia aquele buraquinho na régua. “Venha aqui que lhe mostro. Coloque a régua na pagela, bem ao lado do seu nome”, disse. Quando o aluno obedeceu, Moacir aproveitou o tal “buraquinho” para escrever um bem desenhado “zero” na nota do aluno.

Cultivou, durante anos a fio, uma grande amizade com o poeta e colega na AAL, também falecido, Luiz Bacellar. Muito culto, este o orientou quanto aos caminhos onde conduzir o talento, até que os dois brigaram, ao ponto de Bacelar retirar a dedicatória que havia feito ao ex-amigo no poema “O armário do pintor”, do livro “Frauta de barro”.

Filho de Severino Galdino de Andrade e Jovina Couto de Andrade, Moacir Andrade nasceu em 17 de março de 1927, em Manaus. Era casado com Graciema Britto de Andrade e pai de Gracimoema, Lúcia Regina, Maria do Carmo, Moacir Junior (médico) e Raimunda da Cruz.

O corpo de Moacir Andrade está sendo velado na Academia Amazonense de Letras, na rua Ramos Ferreira, 1.003, Centro, desde as 20h desta quinta. O velório ainda não tem horário definido.

Veja as notas de pesar do Governo do Amazonas, da Prefeitura de Manaus e do Ifam, antiga Escola Técnica, onde ele foi professor:

 

Nota de pesar do Governo do Amazonas

É com profundo pesar que o Governo do Amazonas lamenta o falecimento do artista plástico amazonense, Moacir Andrade, aos 89 anos, ocorrida nesta quarta-feira, 27 de julho. Moacir Andrade estava internado desde o último sábado (23), no hospital Unimed, onde fez uma cirurgia para a retirada de um tumor maligno das vias biliares, mas apresentou complicações no pós-operatório.

Moacir Andrade foi um dos artistas mais expressivos da região amazônica, com destaque para telas pintadas em mais de 70 países, onde sua arte foi difundida, e um grande incentivador da pinacoteca da Secretaria de Estado de Cultura (SEC). O velório do artista plástico será na Academia Amazonense de Letras (AAL), no Centro de Manaus, do qual era membro desde 2010.

 

Nota de pesar, Prefeitura de Manaus

A Prefeitura de Manaus, representada pelo prefeito Arthur Virgílio Neto, em nome de todos os seus servidores, e em especial ao Conselho Municipal de Cultura e a Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), manifesta seu profundo pesar pelo falecimento do escritor e artista plástico Moacir Andrade, ocorrido na tarde desta quarta-feira, após enfrentar graves problemas de saúde e estende a mais profunda solidariedade aos familiares e amigos.

“Moacir Andrade foi um grande amazonense. Fica na história por ser um grande artista plástico e membro da Academia Amazonense de Letras. Os principais museus do mundo têm obras dele. Apesar de seu reconhecimento mundial, era uma figura simples, espontânea, irreverente, um eterno jovem, que se foi aos 89 anos de idade, mas que não morreu, na medida em que a arte verdadeira não morre nunca. Tenho muito orgulho de ter sido amigo dele e um grande orgulho de ser admirador da arte que ele compôs e ofereceu a nós e ao mundo, algumas delas que tenho o privilégio de ter em minha casa e em meu escritório”, disse o prefeito.

A cidade de Manaus muito tem a render homenagens a esse ilustre homem que dedicou sua vida a pensar, retratar e divulgar as coisas desta terra, sempre com o olhar crítico daqueles que amam e, por isso mesmo, cuidam para o seu melhor. O município tem muito ainda a agradecer pela generosidade do mestre que ainda em vida doou sete de suas obras que hoje estão em exposição permanente no Paço Municipal, Pinacoteca e na sede da Manauscult.

“Abre-se uma enorme lacuna com sua morte”, manifestou-se o presidente do Concultura, escritor Márcio Souza.

Moacir Andrade nasceu em Manaus, em 1927. Nesta cidade ele casou e teve cinco filhos. Foi professor, desenhista e finalmente, artista plástico com sua primeira exposição realizada em 1952. Sócio fundador do Clube da Madrugada, Moacir Andrade também fazia parte da nata dos escritores amazonenses.

Em homenagem ao artista, o prefeito decretou três dias de luto oficial.

Nota de pesar do Ifam

É com imenso pesar que o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) informa o falecimento do artista plástico Moacir Andrade, nesta quarta-feira, 27 de julho, aos 89 anos.

Moacir tem sua trajetória pautada na evolução da Instituição. Em 1935, o artista ingressou aos oito anos de idade na Escola de Aprendizes e Artífices. Na década de 70, tornou-se professor de desenho na Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM) onde atuou por mais de 20 anos à vida acadêmica.

Após se aposentar, Moacir de Andrade sempre esteve presente nas atividades desenvolvidas pelo IFAM, principalmente, no Campus Manaus Centro (CMC), onde carinhosamente chamava de “querida escola”. Para o campus, o artista plástico doou diversas obras, sendo homenageado em vida com o Museu Moacir Andrade.

Suas obras retratando a vida do ribeirinho e a Amazônia são reconhecidas internacionalmente. Foram mais de 10 mil telas pintadas e dezenas de livros escritos, dentre eles “Manaus, Ruas, Fachadas e Varandas”, obra que resgata o patrimônio histórico da cidade.

O reitor do IFAM, Antonio Venâncio Castelo Branco, destacou a importância de Moacir Andrade nas artes e, principalmente, no exemplo para os alunos do IFAM.

“Moacir teve uma carreira brilhante e uma trajetória reconhecida mundialmente. Mesmo aposentado nos anos 90, ele nunca se afastou por completo da Instituição. Sempre estava presente nas atividades comemorativas e era exemplo para nossos servidores e alunos. Ele nos fará muita falta, mas nos deixa um legado bonito e de muito de sucesso”, disse Castelo Branco.

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A tela de Moacir Andrade na exposição em curso no ICBEU

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“O empinador de papagaio”, de Moacir Andrade, tela da coleção particular do escritor Elson Farias

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A assinatura de Moacir na tela “O empinador de papagaio”

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Capa do livro-homenagem, editado em 2009, pelas Edições ICBEU

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