Um trabalho escolar, produzido para o Centro Educacional Lato Sensu, levou a menina Beatriz Guimarães, 10 anos, ao contato com a poesia de Casimiro de Abreu e a escrever seu próprio livro de poesias. A obra é um dos destaques da Feira do Sesc e será lançada sábado (8/10.
Confira abaixo uma das poesias de Isabel, “Cores”, “Primaveras” e “Meus oito anos”, que inspirou a escritora, de Casimiro de Abreu, e baixe o livro completo, em PDF.
Publicada com apoio do Sesc Amazonas, o obra de literatura infanto-juvenil reúne poesias que retratam o universo infantil, pela ótica da menina. A autora cursa o quinto ano do Ensino Fundamental. “Meu interesse por poesia começou quando eu tinha oito anos, quando precisei expor na escola a poesia ‘Meus oito anos’, de Casimiro de Abreu”, contou. A partir daí, com o incentivo da mãe, a menina começou a escrever poemas, que compõe a obra.
Isabel têm como principal inspiração as cores. “Nas minhas poesias mostro como as crianças veem o mundo, principalmente sobre as cores desse mundo”. Como poesia favorita do primeiro livro, Beatriz escolhe a poesia “Cores” (leia abaixo).
Segundo ela, este só é a primeira de muitas obras que pretende escrever. Ela já iniciou os escritos para um novo livro, também uma antologia de poesia “Amo as cores e o próximo livro também será sobre cores”, disse.
O lançamento do livro “Coisas da Tiz” será às 18h de sábado, no Café Literário, dentro da programação da Feira de Livros do Sesc. A Feira acontece de 6 a 8 de outubro, no Pavilhão de Feiras do Studio 5, Centro de Convenções.
Leia “Cores”, a poesia preferida de Isabel, e duas obras de Casimiro de Abreu, autor da famosa “Canção do exílio”, além de poder ver o livro inteiro, em PDF:
Cores
Cores, cores, cores
A primavera coisa que abre,
E no meu jardim renasce,
No outro dia e no outro também,
Num céu de Primavera
E na linda Roseira azulada,
Cantam,
Com a minha vontade de ver,
Com um dia de primavera,
Assim ninguém ficará,
Sem a sua cor,
De primavera.
Leia também a poesia que inspirou Isabel:
Meus oito anos
Casimiro de Abreu
Oh ! que saudades que tenho
Da aurora de minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Como são belos os dias
Do despontar da existência !
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu é – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor !
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !
Oh! dias da minha infância !
Oh! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberto o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar !
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
– Que amor, que sonhos, que flores.
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Lisboa – 1857
As primaveras
Casimiro de Abreu
Falo a ti – doce virgem dos meus sonhos,
Visão dourada dum cismar tão puro,
Que sorrias por noite de vigília
Entre as rosas gentis do meu futuro.
Tu m’inspiraste, oh musa do silêncio,
Mimosa flor de lânguida saudade!
Por ti correu meu estro ardente e louco
Nos verdores febris da mocidade.
Tu vinhas pelas horas das tristezas
Sobre o meu ombro debruçar-te a medo.
A dizer-me baixinho mil cantigas,
Como vozes sutis dalgum segredo !
Por ti eu me embarquei, cantando e rindo,
– Marinheiro de amor – no batel curvo,
Rasgando afouto em hinos d’esperança
As ondas verde-azuis dum mar que é turvo.
Por ti corri sedento atrás da glória;
Por ti queimei-me cedo em seus fulgores;
Queria de harmonia encher-te a vida,
Palmas na fronte – no regaço flores !
Tu, que foste a vestal dos sonhos d’ouro,
O anjo-tutelar dos meus anelos,
Estende sobre mim as asas brancas…
Desenrola os anéis dos teus cabelos !
Muito gelo, meu Deus, crestou-me as galas !
Muito vento do sul varreu-me as flores !
Ai de mim – se o relento de teus risos
Não molhasse o jardim dos meus amores !
Não te esqueças de mim ! Eu tenho o peito
De santas ilusões, de crenças cheio !
– Guarda os cantos do louco sertanejo
No leito virginal que tens no seio !
Podes ler o meu livro: – adoro a infância,
Deixo a esmola na enxerga do mendigo,
Creio em Deus, amo a pátria, e em noites lindas
Minh’alma – aberta em flor – sonha contigo.
Se entre as rosas das minhas – Primaveras –
Houver rosas gentis, de espinhos nuas;
Se o futuro atirar-me algumas palmas,
As palmas do cantor – são todas tuas !
Agosto 20 – 1859.
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