19/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Menina lança livro de poesia escrito dos 8 aos 10 anos, na Feira do Sesc, inspirada em Casimiro de Abreu

Publicado em 03 de outubro, 2011

Um trabalho escolar, produzido para o Centro Educacional Lato Sensu, levou a menina Beatriz Guimarães, 10 anos, ao contato com a poesia de Casimiro de Abreu e a escrever seu próprio livro de poesias. A obra é um dos destaques da Feira do Sesc e será lançada sábado (8/10.

Isabel já tem outro livro no prelo. Tomara que não pare mais

Confira abaixo uma das poesias de Isabel, “Cores”, “Primaveras” e “Meus oito anos”, que inspirou a escritora, de Casimiro de Abreu, e baixe o livro completo, em PDF.

Publicada com apoio do Sesc Amazonas, o obra de literatura infanto-juvenil reúne poesias que retratam o universo infantil, pela ótica da menina. A autora cursa o quinto ano do Ensino Fundamental. “Meu interesse por poesia começou quando eu tinha oito anos, quando precisei expor na escola a poesia ‘Meus oito anos’, de Casimiro de Abreu”, contou. A partir daí, com o incentivo da mãe, a menina começou a escrever poemas, que compõe a obra.

Isabel têm como principal inspiração as cores. “Nas minhas poesias mostro como as crianças veem o mundo, principalmente sobre as cores desse mundo”. Como poesia favorita do primeiro livro, Beatriz escolhe a poesia “Cores” (leia abaixo).

Segundo ela, este só é a primeira de muitas obras que pretende escrever. Ela já iniciou os escritos para um novo livro, também uma antologia de poesia “Amo as cores e o próximo livro também será sobre cores”, disse.

O lançamento do livro “Coisas da Tiz” será às 18h de sábado, no Café Literário, dentro da  programação da Feira de Livros do Sesc. A Feira acontece de 6 a 8 de outubro, no Pavilhão de Feiras do Studio 5, Centro de Convenções.

Leia “Cores”, a poesia preferida de Isabel, e duas obras de Casimiro de Abreu, autor da famosa “Canção do exílio”, além de poder ver o livro inteiro, em PDF:

Cores

 

Cores, cores, cores

A primavera coisa que abre,

E no meu jardim renasce,

No outro dia e no outro também,

Num céu de Primavera

E na linda Roseira azulada,

Cantam,

Com a minha vontade de ver,

Com um dia de primavera,

Assim ninguém ficará,

Sem a sua cor,

De primavera.

 

Leia também a poesia que inspirou Isabel:

Meus oito anos

Casimiro de Abreu

 

Oh ! que saudades que tenho

Da aurora de minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais !

Como são belos os dias

Do despontar da existência !

– Respira a alma inocência

Como perfumes a flor;

O mar é – lago sereno,

O céu é – um manto azulado,

O mundo – um sonho dourado,

A vida – um hino d’amor !

Que auroras, que sol, que vida,

Que noites de melodia

Naquela doce alegria,

Naquele ingênuo folgar !

O céu bordado d’estrelas,

A terra de aromas cheia,

As ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar !

 

Oh! dias da minha infância !

Oh! meu céu de primavera !

Que doce a vida não era

Nessa risonha manhã !

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias

E beijos de minha irmã !

Livre filho das montanhas,

 

Eu ia bem satisfeito,

De camisa aberto o peito,

– Pés descalços, braços nus –

Correndo pelas campinas

À roda das cachoeiras,

Atrás das asas ligeiras

Das borboletas azuis !

Naqueles tempos ditosos

Ia colher as pitangas,

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo,

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar !

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais !

– Que amor, que sonhos, que flores.

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais !

Lisboa – 1857

 

As primaveras

Casimiro de Abreu

 

Falo a ti – doce virgem dos meus sonhos,

Visão dourada dum cismar tão puro,

Que sorrias por noite de vigília

Entre as rosas gentis do meu futuro.

Tu m’inspiraste, oh musa do silêncio,

Mimosa flor de lânguida saudade!

Por ti correu meu estro ardente e louco

Nos verdores febris da mocidade.

Tu vinhas pelas horas das tristezas

Sobre o meu ombro debruçar-te a medo.

A dizer-me baixinho mil cantigas,

Como vozes sutis dalgum segredo !

Por ti eu me embarquei, cantando e rindo,

– Marinheiro de amor – no batel curvo,

Rasgando afouto em hinos d’esperança

As ondas verde-azuis dum mar que é turvo.

Por ti corri sedento atrás da glória;

Por ti queimei-me cedo em seus fulgores;

Queria de harmonia encher-te a vida,

Palmas na fronte – no regaço flores !

Tu, que foste a vestal dos sonhos d’ouro,

 

O anjo-tutelar dos meus anelos,

Estende sobre mim as asas brancas…

Desenrola os anéis dos teus cabelos !

Muito gelo, meu Deus, crestou-me as galas !

Muito vento do sul varreu-me as flores !

Ai de mim – se o relento de teus risos

Não molhasse o jardim dos meus amores !

Não te esqueças de mim ! Eu tenho o peito

 

De santas ilusões, de crenças cheio !

– Guarda os cantos do louco sertanejo

No leito virginal que tens no seio !

Podes ler o meu livro: – adoro a infância,

Deixo a esmola na enxerga do mendigo,

Creio em Deus, amo a pátria, e em noites lindas

Minh’alma – aberta em flor – sonha contigo.

Se entre as rosas das minhas – Primaveras –

Houver rosas gentis, de espinhos nuas;

Se o futuro atirar-me algumas palmas,

As palmas do cantor – são todas tuas !

Agosto 20 – 1859.

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