2 – RAZÕES QUE FAZEM DA ZFM UM MODELO FRACO
2.1 – Os fatores de produção mudaram. Hoje o mundo é (e será cada vez mais) da alta tecnologia, o que torna o conhecimento o fator de produção mais importante. O PIM é um pólo de produtos de tecnologia, característica que o torna dependente direto de um estoque de conhecimento que nunca teve. Sem conhecimento para criar e inovar, o modelo não se oxigena e, no longo prazo, perderá a capacidade de sobrevivência, ainda que continue escudado nas benesses dos incentivos fiscais.
2.2 – O mundo tecnológico mudou os fatores de produção, que hoje são: cérebros, logística e mercado. Dentre eles, o estoque de cérebros tornou-se o mais importante. É premissa fundamental na escolha da localização das unidades de produção. O peso é tão forte, que entre estar próximo a Centros de Excelência (cérebros) ou ao mercado, o primeiro tem absoluta preferência.
2.5 – Lamentavelmente o PIM não dispõe dessa variável. Para piorar estamos longe dos mercados e a nossa logística é péssima. Formar cérebros parece não ter sido uma preocupação por aqui.
2.7 – O Pólo desde o seu início trata de tecnologia, mas lá se foram 43 anos onde não conseguiu formar uma elite capaz de criar e inovar relativamente em quase nada. O modelo se sustenta, exclusivamente, e parece satisfeito, das benesses dos incentivos fiscais. Um comodismo perigoso e de sobressaltos conhecidos.
2.8 – Durante esse mesmo tempo: Japão, Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan, China e Malásia mais recentemente, (para citar apenas alguns), tendo como estratégia a aquisição do conhecimento, evoluíram de meros copiadores de produtos para avançados processos de criação e inovação tecnológicas, aí incluída a inteligência artificial (caso do Japão).
2.9 – Mesmo essa conhecida estratégia apresentando resultados espetaculares, não nos motivou à formação maciça de bons cérebros o que credenciaria o ingresso do PIM, pelo menos, no clube dos copiadores, primeiro passo para quem quer deixar a periferia da inovação e avançar no desenvolvimento de tecnologia.
3 – AS AMEAÇAS
As ameaças ao modelo são diversas e conhecidas, mesmo assim, destaco algumas, que considero mais críticas e que reforçam a fragilidade do modelo:
3.1 – Mudança Tecnológica/Reforma Tributária
Hoje todos os que compõem o carro chefe, independentemente da proteção da lei, rigorosamente, já se enquadrariam na lei da informática. Ou seja, só esse fato é suficiente para gerar polêmicas e incertezas, como incerteza é, uma provável reforma tributária. E da palavra incerteza o capital tem horror.
3.2 – O Sucesso do Modelo
Do ponto de vista de faturamento e, consequentemente, de arrecadação de impostos o modelo é sucesso absoluto. Mas as fragilidades que traz consigo, até o sucesso intranqüiliza:
3.2.1 – Entre os argumentos que usamos em favor do modelo aparecem: integridade da floresta, dados do faturamento (?) e outros. O mais veemente, porém, é: “A ZFM há de ser preservada, pois, é o único modelo de desenvolvimento do país que deu certo”.
3.2.1.1 – Ora! Se testado foi, deu certo, fatura alto, gera empregos, impostos e é o único, por que não replicá-lo país afora?
2.2.1.2 – Por que um modelo com todas essas virtudes, num país de tantas carências regionais, tem de ser exclusividade eterna de uma única cidade?
3.3 – Os Formadores de Opinião
3.3.1 – No passado o modelo não era um poço de virtudes. A burla aos PPBs (processos produtivos básicos) e os escândalos de falsificação de destino de notas fiscais, contribuíram para transmitir aos formadores de opinião, a ideia de que o PIM não passava de uma área de maquiagem de “bugigangas”.
Desconformidade que, diga-se de passagem, foi corrigida pelo Ministério do Planejamento comandado por Serra, mas que, ainda, povoa muitas mentes Brasil a fora.
3.3.2 – Até dentro das nossas universidades, acredita-se, ser a iniciativa privada a grande beneficiada dos incentivos fiscais, em favor de quem o governo abre mão de receita tributária. Desconhecem que, quem se apropria do benefício é o consumidor brasileiro, pois, sem o PIM os produtos seriam importados ou fabricados no País com todos os impostos, portanto, muito mais caros.
4 – ALTERNATIVAS
4.1 – Foram 42 anos de inércia e acomodação absolutas, ao longo dos quais, não demos importância alguma à aquisição do conhecimento. Sempre agimos sobre os efeitos e nunca nas causas. Nunca produzimos ações capazes de tornar o modelo independente. Ao contrário, apenas reagimos às ameaças constantes. O nosso único objetivo sempre foi lutar por “prorrogações”.
4.2 – A Amazônia não tem outra escolha. Qualquer iniciativa, que não tenha como base o conhecimento tecnológico/científico tenderá ao desperdício das potencialidades da nossa biodiversidade. Sem isto, não consolidamos o modelo ZFM e não encontraremos alternativas viáveis a partir da floresta e dos rios. Apesar de não levar a nada, em muitos casos, a nossa principal ferramenta tecnológica continua sendo: machado, enxada, terçado e motosserra .
4.3 – A criação de peixe, que se tem alardeado como alternativa é um caso típico dessa questão do conhecimento, ou da falta dele. O Amazonas é a terra do peixe, mas foi em outros estados que a pesquisa se desenvolveu e o conhecimento floresceu. Resultado: hoje além das técnicas de criação, importamos do alevino à ração. Esta, como principal insumo da atividade, chega aqui a preços exorbitantes inviabilizando os empreendimentos da aquicultura, no nosso caso a piscicultura.
4.4 – Já se viu esse filme antes. O alto custo da ração liquidou a atividade de criação de frangos no Estado. O frango consumido na capital e em todos os demais municípios. O Frango sai de Santa Catarina, por exemplo, atravessa o Brasil e depois o Amazonas e vai servir o agricultor no alto Juruá. Um absurdo! Mas é mais barato.
4.5 – Seguindo o mesmo caminho do frango, o tambaqui já é hoje importado de Rondônia. Se não encontrarmos rapidamente uma alternativa protéica para a piscicultura a preços competitivos, outras espécies seguirão o mesmo caminho, liquidando a própria pesca artesanal, atividade que gera renda a milhares de ribeirinhos.
4.6 – Para continuar apenas no exemplo do peixe, há mais de 20 anos se ouve falar que o INPA estaria envolvido na pesquisa para aproveitamento da pele dos nossos peixes. Não se sabe exatamente o resultado e, diariamente, continuam a ser jogadas no lixo toneladas dessa riqueza.
4.2.7 – É preciso pesquisar, gerar conhecimento e transformá-lo em divisas. O que afinal é feito do conhecimento produzido no INPA, no CBA, na UFAM, na UEA, na EMBRAPA? Certamente devem existir belíssimas teses nesses órgãos. Mas, por que delas a sociedade não se apropria? É preciso cobrar resultados.
4.2.8 – O CBA, por exemplo, nascido em 2000 como uma interessante alternativa à pesquisa da nossa biodiversidade. Perdeu importância no governo atual e dele quase não se ouve falar. O que faz ou o que já fez não se sabe.
2.9 – Em grande parte do planeta, diariamente nascem empresas em garagens e fundos de quintal, como resultado do conhecimento gestado por jovens nas universidades e centros de pesquisas. Essa prática aqui é muito acanhada. Não há conhecimento, incentivo e apoio. Além disso, nossas universidades ideologizadas que são, passam para os jovens a aversão que têm a iniciativa privada.
3.3 – O Capital Humano
É verdade que o Estado, quantitativamente, tem avançado na formação de mestres e doutores ação muito eleogiável. Mas, mesmo sem conhecer os detalhes, arisco-me dizer que a esmagadora maioria não segue o caminho das ciências exatas e engenharias sem as quais não haverá avanços à criação e à inovação tecnológicas.
O que seria essa tal revolução? Para compensar o nosso atraso educacional, necessariamente temos de avançar a velocidades maiores do que o resto do mundo. O desafio não é fácil, pois, além da velocidade temos de cuidar da qualidade do ensino.
Manaus há de ser um CENTRO DE EXCELÊNCIA TECNOLÓGICA, sem o que não será possível dar suporte ao nosso pólo industrial e independência ao modelo. Se não caminharmos seriamente nessa direção corremos dois riscos: 1) ver minguar o Pim e 2) Não ver florescer outros pólos que tenham origem na nossa rica biodiversidade.
Caminhar seriamente nessa direção significa dar importância à educação de qualidade. Temos de fazer uma revolução nessa área. Ou seja, temos de caminhar a velocidades extraordinárias para encurtar as distâncias que nos separam do Brasil e do mundo.
É engano pensar que as decisões estão no campo político. Elas estão acontecendo no campo do conhecimento, da tecnologia.
Há pouco tempo, ensaiou-se trazer para cá a fábrica de chips da INTEL. É um belíssimo sonho numa noite de verão, pois, não temos capital humano para suportar tal atividade.
RESUMO DA ÓPERA – Se não conseguir investir na EDUCAÇÃO DE QUALIDADE capaz de gerar conhecimento para produzir tecnologia, o PIM, perenizado ou não, continuará frágil e portador de um sucesso transitório e um fracasso potencial.
Julho de 2010
Francisco R. Cruz
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