04/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Os bastidores (ou boa parte deles) da eleição na Câmara Municipal de Manaus

Publicado em 23 de dezembro, 2010

A eleição para a presidência da Câmara Municipal de Manaus foi um prato cheio de notícias. A maioria impublicável, nos veículos tradicionais. Soube de algumas coisas. Reparto com vocês:

Amigo de Amazonino

Isaac Tayah, e não Homero de Miranda Leão, e menos ainda Mário Frota, era o mais próximo de Amazonino Mendes. Quem tem memória lembra que, em outras épocas, com o atual prefeito fora do poder, Tayah permaneceu com ele. Tanto que é do PTB, partido ao qual Amazonino pertence, e foi líder da base governista até as vésperas da eleição para presidente da Câmara Municipal de Manaus, enquanto Homero era apenas o vice-líder. Razão do rompimento? Achou-se desprestigiado com a indicação do colega.

Sopa no mel

Isaac Tayah foi a Eduardo Braga para pedir que intermediasse o apoio de deputados federais com influência sobre vereadores, em busca de votos. Sabia que, se fosse diretamente, teria dificuldade em conseguir sensibilizar tais parlamentares – especialmente Sabino Castelo Branco, presidente regional do PTB e pai do vereador Reizo Castelo Branco. Braga o ouviu e percebeu a fragilidade da base de Amazonino. Conversou com deputados em separado e logo se formou uma corrente de captação de votos. Mas o sinal verde para o engajamento na campanha veio mesmo com o rompimento público de Tayah com o prefeito.

Reuniões

Ficaram famosas as reuniões de vereadores em torno dos candidatos. O “Dia D”, porém, foi quando Eduardo Braga chamou à sua casa um grupo de vereadores. O número mais coincidente de presentes, entre as fontes do blog, é 15.

Ligação direta

Esse número, 15, porém, seria insuficiente para eleger Tayah, certo? Errado. Ao mesmo tempo, na casa do vereador Mário Frota, sete vereadores que fazem oposição fechada a Amazonino estavam reunidos. E havia uma ligação direta, via telefone, com Braga e companhia.

Defecções

A matemática indicava que Tayah já podia contabilizar 22 votos. Braga, porém, disse a vários interlocutores que contava com 21. Quem trairia? Ninguém sabe. Mas ele contava com Jefferson Anjos e Leonel Feitoza, que votaram em Homero, e teria recebido do próprio deputado estadual Nelson Azedo a garantia de que o filho dele, Nelson Amazonas, ou votaria a favor de Tayah ou não iria à sessão. Nelsinho não só foi, como votou a favor de Homero com (a única) declaração de que o fazia “a pedido de Amazonino Mendes”. Leonel foi um dos principais articuladores de Homero.

Grupos

Hora da votação se aproximando, nervosismo aumentando, e formaram-se dois grupos na Câmara Municipal, um pró-Homero e outro pró-Tayah. Chega o vereador Nelson Amazonas. O lado de Tayah, que não esperava vê-lo por lá, prende a respiração. Ele se dirige ao grupo de Homero. Chegou a bater certo desespero.

Números

Eram 8h da manhã quando as contabilidades foram fechadas. Todos sabiam que a decisão seria por um voto. Houve marcação colada nos, digamos, “eleitoralmente” mais frágeis. Demissões de familiares, ocorridas lá no começo da administração de Amazonino, foram lembradas e convidadas a participar do convencimento de indecisos (cuidado que a frase tem licença poética). O nervosismo chegou ao auge.

Mário Frota

O experiente várias vezes deputado federal, ex-deputado estadual, ex-quase-senador e ex-vice-prefeito Mário Frota ouviu, pouco antes das luzes da ribalta da TV Câmara se acenderem, o canto da sereia de Amazonino. No depoimento de um vereador da oposição, Mário “ficou encantado”. Houve correria. O suspiro de alívio, quando ele fez um enfático discurso anti-Amazonino, retirando a candidatura e apoiando Tayah, pode ser ouvido lá no Puraquequara.

Anti-Amazonino

A oposição não chegou a pensar que teve nas mãos a chance de vencer a eleição. Bastaria que tivesse aceitado a oferta de retirada da candidatura de Homero de Miranda Leão e o apoio em bloco a Mário Frota. Estava comprometida apenas em derrotar Amazonino. Cegamente.

Porcentual decisivo

Amazonino (ou alguém de seu grupo), só fez uma exigência a Mário Frota: que 60% da mesa diretora fosse composta por pessoas indicadas por ele. Esse porcentual é justo o número regimental para decisões nevrálgicas, inclusive a própria anulação da eleição. Na hora “H”, em meio à confusão do plenário, o regimento acabou vindo em socorro a Isaac Tayah. E Frota recuou.

Escuta

Se por acaso houvesse uma escuta telefônica capaz de captar os diálogos trocados nos bastidores dessa eleição, a essa altura estaria disponível material suficiente para escrever um livro. E havia, claro que havia!, alguém muito bem informado de tudo o que se passava nos bastidores.

Independência

Isaac Tayah firmou o discurso de que se rebelou porque “a Câmara não pode ser um anexo da Prefeitura”. Tem razão. Mas se o Legislativo Municipal se tornou um anexo da Prefeitura, ele, Tayah, na condição de líder do prefeito ao longo de três anos, teria sido o principal responsável por isso ter acontecido.

Almoço

Terminada a eleição, cantado o Hino Nacional no plenário, o colégio eleitoral que elegeu Isaac Tayah, em peso, reuniu-se a portas fechadas com o ex-governador Eduardo Braga. Até 17h. Só aí seguiu, em comitiva, para um almoço comemorativo. Na Churrascaria Búfalo, devidamente reservada para tal.

História

2004.

Alfredo Nascimento, convidado por Lula para ser ministro dos Transportes, deixa a Prefeitura e anuncia que o sucessor será, por eleição indireta no colegiado dos vereadores, seu secretário municipal de Economia e Finanças, Aloísio Braga. Luiz Alberto Carijó, presidente da Câmara e até então parceiro de Alfredo, une-se a Amazonino Mendes, fora do poder e aparentemente sem ter nada com isso, para um golpe que redundou na eleição dele próprio, Carijó, para a Prefeitura. O tiro saiu pela culatra. Amazonino perderia a eleição direta para prefeito, no mesmo ano, para Serafim Corrêa.

2010.

Amazonino Mendes, prefeito, indica seu vice-líder na Câmara Municipal, Homero de Miranda Leão, para a presidência da Casa e virtual vice-prefeito de Manaus – já que, em 1º de fevereiro, o vice-prefeito Carlos Souza deixa o cargo para assumir a Câmara Federal. Isaac Tayah se rebela e, apoiado por Eduardo Braga, que aparentemente não tinha nada com isso, ganha a eleição.

O futuro a Deus pertence.

Resumo da ópera

O papel do Legislativo é fiscalizar o Executivo. No caso de Manaus, uma das cidades mais horizontais do mundo, os vereadores têm a obrigação de viver o cotidiano das comunidades mais isoladas, pobres, sem voz e sem quase nenhuma ajuda social para sobreviver, intermediando suas demandas junto à Prefeitura. A Câmara Municipal de Manaus falha nisso. Não tem autonomia. Prova é que se rebelou contra Amazonino, mas, ao mesmo tempo, entregou a rapadura, com oposição e tudo, para Eduardo Braga.

Espera-se de Isaac Tayah que ganhe a estatura necessária para, de fato, promover alguma autonomia, sem radicalismo paralisante – tão danoso quanto a submissão abjeta. Ninguém espere milagres, mas se rolar pelo menos uma “autonomia possível”, já é alguma coisa.

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