Querida Márcia,
Seus apelos e telefonemas me sensibilizaram. Claro, você lembrou dos momentos de nossa infância, adolescência e juventude, quando todos éramos muito mais dedicados ao nosso bumbá que hoje. Mas não votei em você. Votei em Rossy porque não posso esquecer a realidade de que João Pedro Baranda, seu esposo, é também o principal fornecedor dos bumbás de Parintins. E não só do Caprichoso, mas também do Garantido. Temo a promiscuidade dessa relação consumidor-fornecedor, esposa-presidente e as maledicências que possam provocar, exista ou não qualquer irregularidade.
Prometi, com toda lealdade, que se você ganhasse a apoiaria integralmente e cumprirei o prometido, mesmo que isso signifique uma oposição direta, clara e, se necessário, dura. Começo então listando alguns pontos que precisam mudar e uma administração jovem e que se queira transparente deve seguir:
1) Afaste as dúvidas quanto às compras do Caprichoso. Crie uma comissão independente que se responsabilize por isso ou correrá o risco de ver sobre nosso bumbá uma fiscalização severa do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público Federal (MPF), uma vez que grande parte dos recursos repassados aos bumbás são federais;
2) Acabe com essa bobagem de o estatuto estabelecer 15 anos de residência em Parintins como obrigatoriedade para quem queira concorrer à presidência do bumbá. O critério empobrece o pleito e retira da disputa gente preparada, como o próprio vice-presidente do Carmona Oliveira, Sérgio Viana, e o empresário Dodozinho Carvalho;
3) Afaste as arestas. Visite todos os que apoiaram Rossy e explique seus projetos para tornar o bumbá organizado, adimplente e vencedor. Afaste a disputa interna de sua administração. Isso só atrapalha;
4) Traga de volta os compositores que se afastaram do bumbá. Crie uma comissão para receber toadas brutas, isto é, sem necessidade de qualquer trabalho em estúdio ou interpretação mais elaborada. Os bumbás (ambos) sempre retiraram daí as melhores pérolas do sentimento parintinense e agora só quem tem grana, mais de R$ 2 mil, para gastar em estúdio, consegue colocar uma toada na disputa;
5) Pague em dia. Artista de galpão e compositor é trabalhador. Eles são a alma do bumbá. Não tem cabimento pagar em dia uma fortuna para fornecedor e deixar de pagar R$ 2 mil ou R$ 3 mil ou atrasar muito o pagamento para alguém que se mata dentro dos galpões ou derrama sua sensibilidade pelo bumbá;
Seguidos esses passos, você terá a mim e a qualquer torcedor do bumbá com boa vontade do seu lado. Verei aí refletida a menina valente e corajosa que se fazia admirada de todos por esses predicados. Enfrentarei, com a força de todos os meus que já se foram e lutaram tanto por construir esse bumbá, qualquer coisa que aponte na direção de uma empresária voraz e inescrupulosa no comando da nossa maior tradição.
Sua responsabilidade é enorme. O boi bumbá é uma brincadeira fundada por homens e para homens. Só na década de 1960, quando dona Kamé desfilou no Garantido, com o famoso vestido de lamê, as mulheres chegaram. Depois vieram Mira Nascimento, desfilando de maiô, no Garantido, e Cleó Marques e Ana Celeste, idem, no Caprichoso. Posso afirmar que vocês, as mulheres, completaram e abrilhantaram essa genial criação parintinense. Agora você chega à presidência e espero que nada a impeça de se colocar à altura da dimensão histórica do momento.
Leve nosso bumbá a muitas vitórias. Você tem garra, competência e disposição para isso. Parabéns a todos que a acompanharam. Parabéns pela sua vitória pessoal. Sucesso. Toda sorte do mundo. O Caprichoso está em suas mãos.
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