Terceirizado, desesperado, salário atrasado, o nome do escravo ‘moderno’ no Amazonas. Conheça esse panavueiro

Terceirizado é o escravo "moderno" do Amazonas

Terceirizados do João Lúcio protestam pedindo pagamento

Terceirizado, trabalhador das empresas que prestam serviço público no Amazonas, é o nome da vítima do maior escândalo da atualidade. O maior e mais visível da história estadual. Vão receber, dia 22 de dezembro, os salários de outubro. Isso depois de muitas paralisações, a maioria “invisível” para o distinto público. E graças a um esforço de reorganização das finanças estaduais. Já pensou no tamanho do panavueiro? Quase três meses seguidos sem dinheiro novo entrando na família? Ele, o terceirizado, é o escravo “moderno” – se é que escravidão pode ter algo de modernidade – do Amazonas.

 

Quem é o terceirizado?

O terceirizado é o responsável pela limpeza dos hospitais e das escolas. É o atendente dos telefones de serviço da polícia. É o técnico em saúde. É o enfermeiro. E até o médico, embora este esteja “abrigado” nas cooperativas. Eles estão em todo lugar, usando uniformes com os nomes estranhos das empresas do setor.

 

Como o médico entrou nisso

O médico terceirizado foi inventado na segunda gestão de Amazonino Mendes. Foi um tempo em que o Estado fingia que pagava e o médico fingia que trabalhava. Os salários de um médico concursado do Estado eram, mais ou menos e em média, de R$ 5 mil. O governo ofereceu algo como R$ 20 mil, para os que aceitassem trabalhar como cooperativados.

 

Como o médico entrou nisso (2)

A oferta era tão boa que cooperados aceitaram contrato estabelecendo que só podem reclamar judicialmente após três meses de atraso. A lógica parecia simples: associados receberiam três vezes mais que concursados e cooperativas ficariam com sobra para criar um fundo de reserva.

 

Como o médico entrou nisso (3)

O distinto público também teria vantagem. Os médicos faltavam demais aos plantões e os pacientes viviam se queixando de que não conseguiam atendimento. Cooperativas tinham obrigação de cumprir a escala. O médico doente ou participando de congresso ou seja lá o que fosse teria que “passar o plantão”. Funcionou. E aí a terceirização se espalhou feito praga pelos demais serviços públicos amazonenses.

 

O que deu errado

A terceirização de médicos, os cooperados, só começou a fazer água quando os primeiros atrasos começaram a acontecer. Isso consumiu o tal “fundo de reserva”. Depois vieram os descumprimentos à cláusula de reajuste anual e os salários ficaram defasados.

 

Zumbis

Alguns médicos miraram o relativamente alto valor unitário do plantão e começaram a aumentar a própria carga de trabalho. Hoje há zumbis atendendo o público, passando de hospital em hospital, dormindo nos “confortos”, praticamente apartados da família.

 

Terceirizado e o Soldado da Borracha

Terceirizados no Amazonas só podem ser comparáveis aos Soldados da Borracha. Estes se embrenhavam na mata, com uma lata de carne seca e um punhado de farinha. Voltavam com malária e impaludismo (febre amarela), ainda devendo ao patrão e ao regatão. Os terceirizados estão no Serasa e SPC, impedidos de comprar a crédito, devendo à taberna da esquina e aos amigos. E podem ser demitidos a qualquer momento, sem a maioria dos direitos trabalhistas.

 

Empresas terceirizadas

Quando o Estado anuncia que vai pagar os salários dos terceirizados há várias implicações. A mais evidente é que o pagamento será feito não ao trabalhador, mas às empresas prestadoras de serviço. O empresário também ficou com o patrimônio comprometido. Empresas sérias – elas existem no meio sim – mantiveram os serviços, mas a maioria, mesmo entre essas, atrasou salários. Quando receberem irão, pela ordem, cobrir o passivo empresarial e, depois, se der, pagar os salários.

 

Atrasos ‘profiláticos’

Atrasar salários é um trunfo da empresa terceirizada. Os empresários menos sérios do setor apelam para isso logo no primeiro mês. Os funcionários vão para as ruas – muitas vezes estimulados por eles – e protestam ruidosamente, pressionam pelo pagamento. Se os salários estiverem em dia, o trabalhador se cala e o governo não se mexe. É perverso. Mas é fato.

 

Força política

O Estado tem força política para impor o pagamento dos salários dos terceirizados. Não é legal, mas é moral e necessário. Ou o dinheiro liberado para as empresas será jogado ao vento.

 

Amazonino x David

Amazonino anuncia que vai pagar os salários de outubro dos terceirizados em dezembro, certo? Ponto para o ex-governador David Almeida. Ele saiu dia 4 de outubro. Deixou os salários de setembro pagos.

 

Amazonino x David (2)

A liberação do pagamento atual é fruto do domínio das finanças estaduais pela nova máquina. Ponto para Amazonino. Fica faltando só atualizar os salários e não deixar mais atrasar.

 

Amazonino x David (3)

À medida que a eleição para governador se aproxime, a disputa Amazonino x David deve se acirrar. Vai haver muito golpe baixo, claro, mas uma disputa pode ser aplaudida por todos: quem fez mais pelos terceirizados? Com a máquina na mão, Amazonino tem tudo para golear. Tomara que goleie. A humanidade agradece.

 

Sociedade inerte

O escândalo dos terceirizados guarda outro absurdo: a sociedade assiste a tudo inerte. Fica como aquele personagem do Jô Soares que, diante dos fatos mais evidentes, abria a boca e indagava: “Ah é, é!!!?” Nada ouve. Nada escuta. Nada vê. Nada entende.

 

Limite entre honestidade e crime

O terceirizado é o desempregado desesperado, que aceita qualquer coisa para sobreviver. É o sujeito honrado se agarrando à última tábua de salvação. É o limítrofe entre o trabalhador honesto e o criminoso, o assaltante, a mão-de-obra preferencial do tráfico de drogas.

 

Estudo na academia

A questão é tão séria que a academia, Ufam, UEA e até Instituições do Ensino Superior privadas deviam estudá-la profundamente. E apontar soluções.

 

Um GACC para terceirizado

Terceirizados já deveriam ser objeto de instituições filantrópicas. Da mesma forma que o Grupo de Apoio à Criança com Câncer no Amazonas (GACC) atingiu a excelência no apoio aos doentes, assim deveriam existir filantropos trabalhando com terceirizados. O GACC é eficiente na assistência a crianças com câncer físico. Precisamos de empresa que ajudem quem padece do câncer social, trabalhista, moral. E os mais evidentes são, justamente, os terceirizados.

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