EXCLUSIVO: Ex-usuários e policial contam a história de Bebeto da Praça 14 e como comandava o tráfico no bairro

Bebeto da Praça 14 foi morto a tiros, dentro de casa

Bebeto da Praça 14 comandou com mão de ferro, festas e propina o tráfico de drogas em Manaus

A morte do traficante Ramerson Albuquerque de Oliveira, 33, o Gogonha, reabre disputa pelo comando do tráfico na Praça 14. O bairro, tradicional de Manaus, assistiu a impressionante sequência de mortes, ligadas à venda de drogas. Polícia e Justiça fizeram várias prisões e condenações, sem conseguir estancar a violência. E tudo começou com o “reinado” de Luiz Alberto Gomes Coelho, o Bebeto da Praça 14.

O bairro é emblemático. É um berço de cultura. Tem o samba da Vitória-Régia, a igreja de Nossa Senhora de Fátima e o Quilombo do Barranco de São Benedito. Este, aliás, foi o segundo quilombo urbano com certificação da Fundação Cultura Palmares e é Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas. Uma vertente histórica afirma que o Bumbá Caprichoso da Praça 14 foi a origem do homônimo Caprichoso de Parintins.

A Praça 14, que não é tão grande, é dividido pela parte dos moradores tradicionais, do samba e da religião, e os traficantes. As mortes por causa do tráfico de drogas são a face negra da história, que começou com Bebeto. Quem foi ele? Por que a comoção no velório, quando uma parte de Manaus parou? Por que foi tido como “Pablo Escobar manauara”, comparado ao traficante colombiano que revolucionou o comércio de drogas (claro que guardadas as proporções)?

Veja a sequência das mortes mais importantes ligadas à Praça 14:

14/07/2008 – Alessandro Silva Coelho, 27, o “Bebetinho da 14”, é crivado de balas na rua Belmiro Vianez, ao lado do Sambódromo. Ele estava voltando de um show na sua luxuosa Mercedes 320.

15/02/2009 – Luiz Alberto Gomes Coelho, o “Bebeto da Praça 14”, pai de Bebetinho, estava jogando baralho no terraço de casa quando foi morto. Os dois assassinos chegaram de moto, entraram pelo portão escancarado e cometeram o crime. Bebeto era tido como mandante de uma série de mortes, como vingança pela morte do filho, sete meses antes.

04/11/2010 – Flávio Augusto Coelho, 29, o “Flavinho da 14”, sobrinho de Bebeto, foi emboscado e morto na rua General Glicério, Cachoeirinha.

05/11/2017 – Ramerson Albuquerque de Oliveira, 33, o Gogonha, comemorava a morte de traficante rival quando foi assassinado. Os executores o surpreenderam na avenida Tarumã, Praça 14, fuzilando com cinco tiros. Ele era tido como sucessor de Bebeto e ligado à Família do Norte (FDN).

 

Bebeto da Praça 14

O Portal do Marcos Santos ouviu ex-usuários e um policial para saber mais sobre a ligação da Praça 14 com o tráfico. Os usuários frequentaram a casa dele, no Beco Barcelos, e o policial foi ao local no dia da morte.

“Os fornecedores de cocaína da cidade eram contados nos dedos. No começo não havia o Vieiralves e a Praça 14 era o centro de Manaus. Bebeto tinha pequenos ‘vapores’ (revendedores) que distribuíam a droga. Ele próprio só vendia para vips. Era uma espécie de Pablo Escobar de Manaus”, disse o usuário. “A casa era muito simples. Não tinha nada de especial. Ninguém diria que ali viveu um homem rico”, revela o policial.

Um dos ex-usuários conta que várias vezes dormiu no sofá da casa de Bebeto, após consumir droga. “Quando a gente saía, depois de comprar cocaína, os pais dele nos cumprimentavam cordialmente. Era como se tivéssemos ido comprar ovos”, conta outro.

“Os consumidores que compravam direto dele iam ficando íntimos. Um dia ele me pediu para levar o carro dele à oficina, que ficava próxima. Uma viatura policial cruzou comigo no caminho e ligou a sirene. Passou a onda na hora. Me dei conta da bobagem que estava fazendo. Para minha surpresa, os policiais acenaram cordialmente. Eles estavam apenas fazendo uma espécie de reverência. Como o carro tinha vidro fumê 100%, eles pensaram que era o Bebeto no volante”, revela um dos usuários.

 

As festas de Bebeto da Praça 14

Bebeto era torcedor do Fluminense e comemorava as conquistas do time com grandes festas, no Beco Barcelos, onde morava. “Ele ia ao Rio, ver jogos ou para o Carnaval, e quando voltava fechava a rua para festejar”, revela usuário.

 

A morte de Bebetinho

A paz do “chefão” do tráfico acabou quando Bebetinho morreu. O filho tinha cerca de R$ 150 mil na mala do carro e parou numa casa de forró, no Tarumã. O carro foi arrombado e o dinheiro roubado. Começou uma série de perseguições e mortes no submundo do crime. Até que foram descobertos os dois ladrões, conhecidos por praticar esse tipo de roubo. Iniciou-se o “Caso Wallace”, envolvendo o falecido deputado estadual Wallace Souza, o filho dele, Raphael Souza, e vários policiais.

Bebetinho teria encontrado com Raphael no forró e revelado que não podia demorar porque estava com o dinheiro. Raphael foi acusado de “dar a fita” (revelar) para os ladrões executarem o roubo. Bebetinho foi morto por ter ameaçado Raphael, que acabou condenado e cumpre pena por causa da morte.

 

A morte de Bebeto

Bebeto, depois que Bebetinho foi assassinado, teria ordenado uma série de mortes por vingança. Quando estava prestes a chegar aos verdadeiros assassinos, eles resolveram agir antes e o mataram. Os homens da escolta pessoal dele, ligados aos assassinos, teriam facilitado a entrada dos atiradores.

 

A morte de Flavinho

Flavinho da Praça 14 morreu porque estava dando os primeiros passos no sentido de suceder Bebeto no comando do tráfico. Chegou a ser acusado de subornar um promotor de Justiça. Trombou com traficantes mais experientes ou com os assassinos do tio e acabou morrendo.

 

A morte de Gogonha

Gogonha era eletricista, ex-presidiário e ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Mudou de lado na cadeia e virou integrante da FDN. Era acusado de muitas mortes, na guerra pela chefia do “Comando 14”. Teria sido morto por contrariar um dos chefões da FDN, Gelson Carnaúba, que, preso em cadeia federal, ordenou a execução.

 

Sucessão

“Gogonha nunca chegou nem perto do que foi Bebeto da Praça 14. O Bebeto tinha muito dinheiro. Só não era mais rico porque gastava grande parte em propina para policiais e autoridades”, diz um ex-usuário. “Várias vezes a gente encontrava pessoas importantes na casa dele, cheirando cocaína e jogando conversa fora”.

Gogonha era um “traficante liso” e atuava apenas como testa de ferro dos chefões, segundo o policial. Impunha-se mais pelo caráter sanguinário.

A discussão do momento é sobre quem será o sucessor desse “legado do tráfico” na Praça 14. “Isso tem importância mais para a mídia que para os traficantes. O Sassá da Praça 14 (Denilson Silva Ferreira, 31), que era do grupo dele (Gogonha), também não chega nem perto do Bebeto”, disse o policial. Sassá seria o principal candidato a sucessor de Gogonha.

“É importante lembrar que, hoje, a Praça 14 como centro do tráfico é mais simbólico do que real. O próprio Sassá foi preso num laboratório de drogas do Novo Aleixo. Bem distante do que consideram reduto dele, a Praça 14”, finaliza o policial.

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4 comentários para “EXCLUSIVO: Ex-usuários e policial contam a história de Bebeto da Praça 14 e como comandava o tráfico no bairro

  1. Mila disse:

    Perdão, mas traficante nenhum merece uma linha que seja em qualquer meio de comunicação. São escórias juntamente com quem os alimenta, os usuários.
    A quem interessa saber quem é quem nessa maldita linha sucessória?
    Relacionar a Praça 14 como berço do tráfico ainda que simbólico nos momentos atuais e como isso fosse de uma grandeza é doentio.

    RESPOSTA
    Perdão, mas eu discordo de você. Essas histórias, entrelaçadas, têm em comum a morte prematura, a violência, o sangue. Virar as costas aos fatos ou publicá-los isoladamente não ofereceria o contexto necessário à compreensão dessa ligação da Praça 14 a tantos assassinatos que, por sua vez, estão ligados ao tráfico de drogas. As mortes são concretas. É dever de todos trazê-las à luz para exigir que parem. Virar as costas não nos ajudará a combater essa escalada de violência. Obrigado pela leitura e participação.

  2. Juarez disse:

    Lembro do dia da morte do Bebeto da 14 , Manaus parou..depois da morte do gogonha o Laércio foi baleado ..muita onda na o14

  3. Wdson moraes disse:

    Essas histórias são salutar política x tráfico ou ttafico x política tudo aver.

  4. ze disse:

    Lembro que quando era criança falavam muito de um tal de Padeirinho, acho que esse foi o Pablo Escobar manauara,porque diziam na época que todo mundo caia na mao dele,politicos,policiais etc.
    Faz uma matéria sobre ele Marcos Santos.

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