Sábado, 21 de abril de 2018

Armas vendidas para presos da facção FDN foram usadas na chacina do Compaj, diz inquérito

Imagem de um dos vídeos divulgados com a conclusão do inquérito, que aponta, segundo documentos, que policiais e agentes penitenciários facilitaram entrada de armas mediante pagamento. Foto: Reprodução

Objetos proibidos entravam no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) conforme pagamento e uma tabela de preços. Pistolas com munição, por exemplo, custavam de R$ 1.500 a R$ 3.000.

Facões desviados da cozinha eram vendidos a R$ 200. Mediante pagamento de propina, policiais militares e agentes de ressocialização permitiram que chefes da facção criminosa Família do Norte (FDN) tivessem acesso a pistolas e facões dentro do maior presídio do Amazonas.

As armas foram usadas para assassinar rivais durante o “massacre de Manaus”. As informações constam de inquérito conduzido pela força-tarefa criada pela Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP) para investigar a chacina de 56 presos durante a rebelião do dia 1º de janeiro.

Controle do tráfico

Mais da metade dos mortos no maior massacre na história do Amazonas era ligado à facção rival da FDN, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ambos disputam o controle do tráfico na Região Norte e no Brasil.

Segundo reportagem do Uol, que teve acesso a documentos do inquérito, a posse de tais armas por parte da facção foi crucial para que os criminosos atingissem o seu objetivo: praticamente exterminar “internos da facção rival e de outros presos em condições de vulnerabilidade”, afirmaram, no inquérito, os delegados responsáveis pela investigação.

“Por óbvio, dada a quantidade de material apreendido em poder dos rebelados, havia facilitação por parte de agentes do sistema penitenciário para o ingresso de armas de fogo, celulares, armas brancas e demais objetos de cunho proibido no referido Complexo Prisional”, apontou a força-tarefa.

Em 7 de abril deste ano, um detento prestou depoimento, sob sigilo, a um dos delegados que integravam a força-tarefa amazonense. Seu depoimento descreve como armas e outros objetos proibidos entravam no Compaj: parte do armamento era levada por policiais militares responsáveis pelas vigilâncias nas guaritas da muralha do complexo penitenciário.

“As armas eram encomendadas a donos de ‘bocas de fumo’ da cidade de Manaus pelos ‘líderes’ da FDN que estavam encarcerados no interior do Compaj”, disse o presidiário, em depoimento. A partir daí, os traficantes entravam em contato com os policiais militares e repassavam a estes as pistolas, de variados calibres.

Segurança

Titular da SSP do Amazonas até o começo de outubro, o delegado federal Sérgio Fontes afirmou que “as ações desses agentes públicos são isoladas” e que outros casos ocorreram após o massacre.

Para os delegados da força-tarefa da SSP amazonense, a facilidade com que chefes da FDN tiveram acesso ao armamento foi condição essencial para que o massacre de Manaus ocorresse.

Em nota à reportagem, a SSP-AM informou que os inquéritos referentes ao Compaj foram concluídos e entregues à Justiça. No decorrer das investigações, houve indícios da participação de um ex-diretor do presídio, um sargento da reserva da Polícia Militar, em possíveis atos ilícitos. Mas as investigações ainda estão em curso.

A SSP ressalta que, havendo provas do envolvimento de qualquer agente da segurança pública em atos ilícitos, os acusados irão responder, também, administrativa e disciplinarmente junto a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança.

Na Justiça

O Juízo da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Manaus decretou a prisão preventiva de 205 pessoas que teriam tido participação ou envolvimento na morte de 56 detentos durante rebelião no Compaj.

A Justiça acompanhou parecer do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE), e despachou em 27 de outubro, deferindo os decretos de prisão preventiva.

Na decisão, o Juízo determinou a prisão e custódia nos presídios federais de segurança máxima de 9 indiciados; mais 159 que encontram-se no sistema prisional amazonense em função de outros processos; e de mais 37 indiciados – estes, fugiram do Compaj durante as rebeliões e encontram-se foragidos.

Inquérito

A maior chacina entre presidiários ocorrida no Amazonas e no Brasil resultou no indiciamento de 210 detentos do presídio, conforme inquérito concluído pela Polícia Civil após 8 meses do massacre.

Foram realizadas perícias nos locais das execuções e assassinatos e análises das imagens das câmeras do circuito interno da unidade prisional.

O inquérito produzido tem mais de 2,6 mil páginas, entre oitivas, fotos, áudios, laudos de necropsia e DNA feitos nos corpos, tendo iniciado dia 9 de janeiro e sendo remetido à Justiça no dia 30 de agosto.

Durante as investigações, ficou comprovado que a chacina teve uma ordem externa, partindo do narcotraficante José Roberto Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, um dos criadores da FDN, considerado o terceiro maior grupo do país.

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