Mulheres reais e fictícias

Felix Valois

Felix Valois

Na imponência de seus dezessete anos, meu neto Fábio Junior foi fazer vestibular no Rio de Janeiro para a Faculdade de Relações Exteriores. O tema da redação foi “Mulheres, reais ou fictícias, que influenciaram a História”. Acho que deram muita areia para ser transportada pelos caminhões da juventude, cuja maioria, muito íntima de tablets e celulares, não tem lá uma convivência muito saudável com a leitura, chegando, quando muito e se não exagero, ao almanaque do Biotônico Fontoura. O que não é pouco, se levarmos em conta que Lula se gabava de nunca ter lido um livro. Paciência. Deu no que deu. Acontece, para minha satisfação, que o Campeão, como na intimidade da família chamo o jovem mancebo, escapa dessa vala comum de mediocridade. Basta ver que estuda violino e não dá a mínima importância para o futebol, o que é uma pena, porque poderia ser um aguerrido torcedor do glorioso Fast Clube. Mas o certo é que ele gostou do tema e ainda se gabou para mim de que teve a oportunidade de iniciar um período com “outrossim”, esse advérbio do século treze e que não poucas vezes é empregado de maneira tola e estapafúrdia por aqueles que denomino “escritores de internet”.

Não sei se eu estaria assim tão tranquilo e confiante quanto meu neto. Eu, que nos moldes do computador português, já não guardo muita memória da juventude, mas apenas uma vaga lembrança, talvez não me houvesse com a desenvoltura necessária para enfrentar e superar a concorrência. O que diria eu sobre assunto tão transcendente, eis que vincula o gênero feminino ao próprio desenvolvimento da Humanidade? Cuido que seria impossível não lembrar, logo de cara, de Maria, a mãe de Cristo. Afinal, por mais de dois mil anos vem ela sendo cultuada (adorada, mesmo) por bilhões de pessoas, numa proeza da Igreja Católica, a desafiar o raciocínio lógico. E ainda cultiva heterônimos, pois são muitas e diversas as invocações que a ela se fazem. Minha irmã Zenira, por exemplo, guerreira que já nocauteou dois cânceres, está agora mesmo no santuário de Aparecida, a agradecer à Virgem daquele lugar as vitórias sobre a doença. Já dá para ver que a coisa é séria e a própria virgindade da santa é um fenômeno em si mesma, surgida e mantida, apesar da maternidade, numa época em que a cirurgia plástica não era objeto nem de ficção científica. Tenho, pois, que a Virgem Maria seria a figura emblemática e de proa na redação sob os meus cuidados.

Mas, dirão os implicantes, assim não vale porque houve apelo para o sentimento religioso. Replicaria eu: e daí? Não é por acaso que a maioria esmagadora das pessoas que conheço tem uma crença e só esse fato seria suficiente para espancar as dúvidas sobre a importância de uma figura que se destaca no ramo, mesmo para mim que, dessa matéria, estou afastado desde tempos imemoriais. Superada essa preliminar, cumpriria voltar ao tema e as escolhas já não se revestiriam da universalidade da anterior.

As Elizabetes, da Inglaterra, talvez entrassem na minha linha de exposição. A primeira porque, sem nem mesmo pretender a santidade, insistiu numa virgindade caturra e complicada, responsável inclusive pelo fim de uma dinastia. A segunda, por sua vez, depois de brigar e implicar com a belíssima princesa Diana, apresenta uma longevidade que começa a incomodar seus possíveis sucessores, já ansiosos por ouvirem a tradicional proclamação: “The queen is dead. God save the king”.

No Brasil, especificamente, a nobreza também se faria presente na minha lista, por isso que não me permitiria esquecer a princesa Isabel, que, já nos estertores do império, teve a oportunidade de assinar lei, pondo, afinal e formalmente,  fim àquela chaga da escravidão. É certo que Sua Alteza Imperial não o fez por livre e espontânea deliberação. Os interesses comerciais ingleses há muito tinham tornado inviável o tráfico negreiro e a Lei Áurea foi apenas o reconhecimento de uma situação estabelecida de fato.

Tendo adentrado o terreno das leis, não seria viável deixar de fora dona Maria da Penha que, por força de sua constrangedora situação, levou o legislativo brasileiro a operar um fenômeno: brotou uma lei proibindo o que já era proibido.

Se fosse permitido falar da história pessoal, este modesto escriba com certeza incluiria as professoras Olga Rocha e Neuza Lemos que, com paciência beneditina, produziram em mim o milagre do desemburramento, nos longínquos e saudosos tempos do grupo escolar.

Finalmente, não esquecendo que o tema falava em mulheres reais e fictícias, nesta última categoria eu incluiria dona Dilma Roussef, de cuja real existência até hoje duvido, tamanhas e tão graves foram as trapalhadas em que se meteu no período de tempo em que o povo brasileiro cometeu a insensatez de lhe conferir mandatos.

Acho que o Fábio Junior se saiu melhor. Nem “outrossim” eu usei.

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída pelo Senado Federal para elaborar a proposta de reforma do Código de Processo Penal.

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